sexta-feira, abril 29, 2005

Antígona de Sófocles

Em Antígona, a tragédia, tem como heroína Antígona, filha de Édipo e Jocasta.
A intriga da história começa com uma alusão à guerra dos Sete contra Tebas, na qual os dois irmãos de Antígona, Etéocles e Polinices, se confrontam em lados opostos. Ambos morrem no campo de batalha mas, aos olhos de Creonte, tio daqueles, Polinices é considerado traidor de Tebas e, por isso, não lhe são concedidas honras fúnebres.
Antígona recusa-se a cumprir a ordem de Creonte e, considerando tratar-se de um dever sagrado dar sepultura aos mortos, infringe a ordem do soberano e realiza os rituais fúnebres a que o irmão tem direito. Devido a este acto de piedade, Antígona é condenada à morte pelo rei de Tebas e encarcerada viva no túmulo dos Labdácidas, de quem descende. A acção impiedosa do rei será punida no final da tragédia: ao tomar conhecimento da morte de Antígona, Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígona, suicida-se. Por consequência deste segundo suicídio, é a vez de Eurídice, mãe de Hémon, decidir "morar eternamente no Hades".
Antígona é caracterizada, essencialmente, pelo seu acto de desobediência, solitário e poderoso. É uma personagem que contém força e agressividade, sendo capaz de arriscar tudo em defesa dos seus princípios. Enquanto aos olhos de Creonte e de alguns conselheiros de Tebas, a filha de Édipo não passa de um ser movido pelo ódio e pela ambição, para outros ela é apenas uma jovem inocente, justa e acometida de piedade para com os mortos. Esta não é, pois, uma caracterização unânime.
Do ponto de vista familiar, a heroína é uma personagem que representa o lado frágil e sofredor da família contra aquele que detém o poder. Antígona é, assim, detentora de um sentido político uma vez que é colocada ao mesmo nível do seu adversário, Creonte, o rei.
A vida e a morte surgem como os valores mais importantes do ser humano, abordando concomitantemente outros temas como o amor fraternal e o respeito pelas leis humanas e naturais.
Já no seu tempo Sófocles havia criado os seus carácteres inspirado no ideal de conduta humana. Humanizou a tragédia e fez dela o modelo imortal da educação humana. Assim, Antígona eleva-se a uma grandeza humana pelo aniquilamento da sua própria felicidade terrena e da sua existência física e social. O drama de Sófocles gira em torno da imposição política que pesa sobre o espírito individual na interioridade silenciosa do ser. Este silêncio e também a solidão são as condições essenciais do teatro de Sófocles.

«Apenas o tempo revela o homem justo; basta um dia para pôr a nu um pérfido»
«Há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado»

(Leiam se puderem que é pequenina, foi considerada a primeira tragédia sobre os dilemas éticos.)

5 comentários:

Rocha disse...

Uma noite escura, uma leitura agradável e temas profundos. A ética, o conhecimento, a realidade e…o isolamento absoluto. A solidão e o barulho interior.

Quem é? Que se passa? Apenas uma a cagarra perdida nas telhas! Um pássaro estranho no tecto do meu mundo.

Quem me dera adormecer a ouvir uma voz a dizer o que leio…

Não há nada de ameaçador nos silêncios prolongados. Há, apenas, a contemplação e o conhecimento de si. Na pior das hipóteses uma "desvontade" de dizer e um desassossego de estar.

Os amores, mesmo que não existam, estão isentos de dilemas porque a sua natureza é de outra origem, de outra natureza…

Abraços…

Vasco Macieira disse...

A tragédia grega é uma fonte de inspiração inesgotável para a literatura ocidental, que devemos todos explorar. Há um elemento curioso que une as tragédias de Sófocles como um subtil fio conector: O herói que pelo auto-sacrifício dá prazer à multidão, o êxtase do sangue purificador. O exemplo paradigmático é o de Édipo. O engraçado é que esses caracteres de que falas no texto sobrevivem totalmente à sedimentação das épocas. É no fundo fruto da hábil transposição do inconsciente colectivo no consciente através da manipulação dos símbolos e arquétipos. Beijos.

R.Dart disse...

DoFundo, bem vindo. :)

LN disse...

Só me apetece pensar no confronto das duas leis: a exterior e a interior, a dos homens e a da pessoa. E que prevalência? Antígona, a desobediente à lei exterior.
Ah, e acrescentaria, o recordar do trágico fim dos desobedientes...

Bjs e bom fim de semana :)

Caiê disse...

Acho interessante esta tragédia, sobretudo porque, ao contário da maior parte das tragédias, repousa em dois pilares, digo 2 figuras principais- Antígona e Creonte. um vale pelo outro, contrapõem-se como forças opostas. Sei que há mais do que uma teoria para isto, nomeadamente a que diz que Antígona seria a força familiar e Creonte representaria os interesses da polis... O facto é que um não faz sentido sem a determinação do seu opositor, e isso torna tudo mais rico!